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Postado em 22/01/2010 - 10:15

Tecnologia tenta vencer deficiências no ensino

Fonte: Valor Econômico

Por: Ana Cecília Americano

As quase 200 mil escolas da educação básica - que abrigam alunos desde os primeiros anos da educação infantil até o ensino médio - vivem as contradições de um momento de transformação. Apesar de a educação no país ainda ostentar índices de qualidade indigestos, como os divulgados pela Unesco esta semana que situam o Brasil na 88º posição entre os países, atrás de Equador e Honduras, há movimentos com forte potencial para reverter esse quadro. Entre eles, a aposta na tecnologia para ampliar os atuais limites da aprendizagem e revolucionar o modelo pedagógico tradicional.


O programa Banda Larga nas Escolas, do governo federal, que no ano passado conectou 46 mil escolas públicas urbanas, tem o desafio de inserir na rede outras 80 mil este ano para, em 2014, abranger a totalidade das unidades. O esforço vem aliado ao treinamento de 300 mil professores para o uso desses recursos e coincide com uma miríade de experiências-piloto - boa parte delas capitaneada por institutos da iniciativa privada - que convergem para a adoção em sala de aula de novas mídias, tecnologias e metodologias. As iniciativas vão desde a adoção da programação de robótica em projetos temáticos à construção de games e softwares educativos feita por alunos, passando pela crescente participação de estudantes em comunidades virtuais de aprendizado.


Cyro Diehl, presidente da Oracle do Brasil, que trouxe ao país o projeto ThinkQuest, uma plataforma gratuita de educação com estrutura semelhante aos sites de relacionamento na internet onde conteúdos são compartilhados, cita o potencial que a colaboração virtual trouxe a escolas de Indaiatuba (SP) que já contam com computadores e acesso à web. "Inicialmente, os professores não sabiam o que fazer com a novidade. Mas logo surgiu a ideia de produzirem livros virtuais que pudessem ser publicados na plataforma", lembra. Os alunos foram envolvidos num projeto de discussão, elaboração de roteiro, autoria de texto, edição de figuras e apresentação de livros feitos coletivamente em sala de aula, desenvolvendo várias competências importantes, conta Tania Castanho, secretária de Educação da cidade. Com quatro anos, a iniciativa premia anualmente os melhores livros digitais das 22 escolas.


A introdução da internet remete à adoção da TV na educação há algumas décadas. "A internet será outra revolução de magnitude ainda maior", afirma o físico e professor Carlos Eduardo Bielschowsky, secretário de Educação à Distância do governo federal. Segundo ele, a televisão permitiu que se disseminassem conteúdos de qualidade em massa. E dá condições hoje para que a educação à distância some três milhões de adeptos no país.


Exemplo do sucesso obtido usando a tecnologia da velha telinha é o programa Telecurso, uma parceria entre a Fundação Roberto Marinho e Federação das Indústrias de São Paulo (Fiesp), voltado principalmente para o público de jovens adultos, que já formou cinco milhões de brasileiros. Atualmente outros 500 mil seguem sua metodologia, que abrange desde a primeira série do ensino fundamental ao final do ensino médio.


A eficácia desse processo, porém, depende de vários fatores, explica Vilma Guimarães, gerente de educação da Fundação Roberto Marinho. Além das teleaulas de 15 minutos, os alunos são chamados a discussões e a realização de exercícios em sala de aula com o apoio de professores, bem como dos tradicionais livros e dicionários. Alguns resultados impressionam: o Estado do Acre, por exemplo, adotou o Telecurso em 2003, quando ostentava a 27ª. posição entre as unidades federativas do Brasil no Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb). Apenas três anos depois, chegava ao 9º. lugar.


A convergência de mídias, por sua vez, impulsiona a renovação da mesma educação à distância, potencializada pela interação on-line. É o caso do curso regular do Colégio Militar de Manaus. Criado há oito anos, ele foi pensado para os filhos de militares que servem nos lugares mais remotos da Amazônia, onde não há escolas. O Major Robson Santos Silva, que coleciona, à margem de seu currículo militar, um mestrado em pedagogia e um MBA em gestão educacional, explica que o material didático do programa lança mão de diversas mídias - CDs, DVDs, impressos, e a comunicação on-line, o que garante a 400 alunos nos rincões da floresta ou em bases de 34 países no exterior participar de aulas e de discussões em português via internet.


O programa foi reconhecido pelo prêmio "Novas Formas de Aprender", do Instituto Claro, que deverá financiar uma revisão e ampliação do seu conteúdo. "Precisamos incentivar o desenvolvimento da inovação na educação", diz o presidente do instituto, o ex-ministro de Minas e Energia Rodolpho Tourinho Neto. "Esse é um mundo novo e não sabemos quais podem ser os seus limites", diz.


Para o cientista social e jornalista Fernando Rossetti, secretário geral do Grupo de Institutos Fundações e Empresas (Gife), as novas tecnologias forçarão uma mudança na qualidade da educação. "Antes, o aluno era considerado um recipiente vazio de conhecimento a ser preenchido pelo conteúdo do professor. Hoje, o educador tem de ensinar o aluno a navegar criticamente num oceano de informações na web e a capacitá-lo a ser também um produtor de informações e de comunicação", resume.


De olho em projetos que promovem essa revolução, a Microsoft, por exemplo, premia professores que elevam o uso da sua tecnologia a patamares ainda mais ousados. "O educador, nesse contexto, é fundamental", diz Emílio Murano, diretor de educação da fabricante de softwares. Seus projetos em educação no Brasil já somaram mais de R$ 103 milhões de investimentos nos últimos seis anos. Entre eles consta o prêmio "Educador Inovador", que recebe anualmente centenas de inscrições. Guilherme Erwin Hartung, de Petrópolis, é um dos homenageados pela premiação. O professor de matemática do Colégio Estadual Embaixador José Bonifácio criou uma empresa fictícia, a Fractal Multimídia, gerida por seus alunos do ensino médio, que produz imagens em 3D - a exemplo de moléculas de carbono da estrutura do grafite e do diamante, ou templos incas, maias e astecas - assim como softwares e games educativos para serem usados pelos professores do colégio.


"Cada aluno tem o seu papel na empresa: alguns preferem desenvolver roteiros, outros se envolvem na parte artística, outros são responsáveis pela programação", detalha Hartung. A produção é usada na escola e oferecida a interessados via internet. Segundo o professor, testes da aplicação dos objetos digitais em sala de aula mostraram que o aproveitamento do aprendizado chegou a aumentar de 51% para 76%.